terça-feira, 22 de maio de 2012

7 jogos perigosos de “incomunicação” que prejudicam o casal




Durante dez anos - 1996-2006 – um grupo de investigadores argentinos de terapia familiar observou as interações de uma centena de casais que procurou terapia para resolver os seus conflitos relacionais. Este grupo de estudo tinha entre 1 e 30 anos de relação e idades compreendidas entre os 22 e os 60 anos. Na sua maioria tinham uma média de dois filhos. Neste estudo, os casais apresentaram alguns dos seus problemas mais comuns (ciúme, necessidade de mudar o outro, “adivinhar” o que o outro diz ou pensa, comparações da atual relação com a família de origem, excesso de dependência dele / dela e idealização do outro). As consequências destas dificuldades, para os casais, são a auto-destruição da relação, a desvalorização mútua dos parceiros, sensação de fracasso, sentimentos de raiva, ansiedade e tensão. "Todos estes conflitos e mal entendidos relacionais são prejudiciais num relacionamento. Começam com um simples gesto ou uma acção que é mal interpretada pelo outro e, posteriormente, podem chegar a ultrapassar o contexto da relação e envolver outros membros ", diz o psicoterapeuta argentino Marcelo Ceberio. Para este profissional, a base de todos os conflitos é o isolamento dos parceiros e a sua dificuldade em expressar e ouvir os seus pontos de vista.
Além da falta de comunicação, os membros de um casal estão normalmente mais preocupados com aquilo que é dito do que com aquilo que é “realmente ouvido”. Há uma tendência para querer “ganhar”. O problema das palavras é que, muitas vezes, não expressam o que querem realmente expressar. A mágoa e os mal-entendidos levam à necessidade de “defender-se” do outro. Se esta defesa for posta em prática recorrendo à desqualificação, à ironia, à expressão acesa da raiva e do ressentimento, o discurso resultante não é mais que um prolongamento da mágoa. Como se se construisse, em cima da mágoa, uma carapaça de “ouriço”. Quando nela se toca, é-se automaticamente ferido.
Primeiro jogo perigoso: A tentação de querer mudar o outro
"Eu não sabia que tu eras assim", diz uma mulher em terapia de casal. O marido responde: "O que é que queres que te diga? Onde é que estavas quando me conheceste?”
Idealizar o outro faz parte do processo de enamoramento do casal. Mas quando um membro do casal fica preso à necessidade de produzir mudanças no outro, de acordo com seus próprios conceitos, entra num beco sem saída. É uma armadilha, porque impede a consolidação de um casal maduro e real, que aprende a aceitar-se tal como é. Quando isto acontece, ambos os parceiros ficam presos a uma dinâmica de insatisfação com a realidade. A construção de uma relação de casal madura implica aceitar e incorporar as partes do outro que se amam, e negociar as partes do outro que podem ser alvo de uma mudança saudável, numa base de comum acordo.


Segundo jogo perigoso: Perseverar na “conquista”
Um relacionamento amoroso, diz Marcelo Ceberio, torna-se uma relação só quando ambos os parceiros estabelecem claramente os aspectos que o motivam no outro, assim como os aspectos que não incentivam o seu amor. Quando um casal não consegue realizar este exercício, está preso ao jogo que ele chama de "perseverar na conquista." No período de enamoramento, em que ambos os parceiros se seduzem, muitas vezes só mostram ao outro aquilo que o outro quer ver, resultando num amor cheio de idealizações. Após este período, todas as falhas do outro começam a tornar-se visíveis. Surge então o desejo de mudar o outro. "Há uma relação direta entre a idealização que se desenvolveu no primeiro período e a frustração sentida quando o casal se torna mais “real”. Muitas vezes os cônjuges escondem esta decepção. Mas se existe decepção, é porque foi de alguma forma construída uma ilusão do outro, que deve ser expressa e trabalhada. Ignorá-la, é entrar neste jogo.
Terceiro jogo perigoso: "Nós não somos dois, mas seis"
Este jogo comunicacional tem a ver com a relação do casal com as suas famílias de origem. "Nós não somos dois, mas seis," refere-se à relação que existe entre os dois parceiros e as suas representações do pai e da mãe de cada um. Marcelo Ceberio chama-lhes os "quatro fantasmas em intercâmbio no aqui e agora." As representações que cada parceiro tem das suas figuras parentais podem influenciar o vínculo relacional. Esta influência pode traduzir-se numa busca do seu pai ou mãe no/a parceiro/a ou, em algumas situações, numa busca do exacto oposto. As crenças, valores e modelos do que significa ser homem e mulher são internalizados a partir da experiência da família de origem. No entanto, os casais podem e devem transformar essas crenças adquiridas através da complementaridade, que é, em última análise, a razão de ser de um casal.
Quarto jogo perigoso: "Zoom in e zoom out"
Essa interação ocorre naqueles casais em que homens e mulheres operam sob uma confiança excessiva. Isto acontece quando um dos membros do casal se torna um “frasco de soro” e o outro depende inteiramente dele/a para viver. Quem inicialmente oferece o seu apoio incondicional, vai acabar por se “esgotar” desse papel, ou por necessitar de espaço pessoal e, quando isso acontece, o mais indefeso sentir-se-á rejeitado e pode começar a “reclamar”, gerando uma distância ainda maior no seu parceiro/a. A dependência é, de um modo geral, uma interação disfuncional, que não desenvolve o relacionamento porque um parceiro se torna essencial para o outro: ele/a depende do outro para decidir, tomar iniciativas, atender ao seu estado de espírito, etc. Isto gera no parceiro, com o tempo, um desejo de “escapar” da asfixia a que está submetido/a.

Quinto jogo: A dialética "do senhor e do escravo"
"Lembras-te quando eu te disse…", “Eu bem te avisei”, "Sou sempre eu tenho que dizer tudo!", "Como sempre…". Rapidamente, estas críticas se tornam-se desqualificações, aumentam o volume e o tom de voz e podem mesmo chegar ao abuso e/ou violência verbais. O problema aqui é a confusão entre “competir” e “partilhar”. A relação está centrada em disputas intermináveis que, ao descuidar progressivamente a inteligência emocional, terminam em escaladas de agressão intermináveis.
Sexto jogo perigoso: O jogo dos pré-conceitos
Os pressupostos são comuns na comunicação, mas nas relações humanas, se não perguntamos diretamente ao outro o que ele quer dizer, corremos o risco de assumir e gerar mal-entendidos, comunicações distorcidas e conflitos. Um gesto, uma frase, uma ação podem ser o motor de arranque para uma má interpretação. Mas o problema não é a interpretação em si, é a resposta que damos a essa interpretação. A grande chamada de atenção dos psicólogos é para as “profecias auto-realizáveis". Por exemplo, alguém franze a testa porque tem dor de cabeça, mas o seu interlocutor assume que está chateado/a e começa a fazer coisas para o/a divertir. Aquilo que vai verificar é que as suas tentativas para “divertir” o outro vão fracassar- e portanto o outro vai parecer ainda mais chateado.
Esclarecer os mal-entendidos gerados pela comunicação é uma boa prática porque, além de evitar que se cometam erros futuros, proporcionam um melhor conhecimento do outro.

Sétimo jogo perigoso: As triangulações de ciúme
“Uma esposa ciumenta e insegura fantasia que o seu marido olha demasiado para a sua nova secretária. Para gerir esta desconfiança, passa a ligar para o escritório três vezes por dia, com o único objetivo de manter a situação “sob controlo”. Se o seu marido se atrasa a chegar a casa, a esposa não consegue evitar alegações e acusações de infidelidade do marido com a sua nova secretária. A situação repete-se por muito tempo, e ele sente-se tão oprimido na sua relação de casal que começa a procurar momentos de “paz”. Cada vez chega mais tarde a casa. Faz horas extra no trabalho. Vai tomar uma cerveja com os amigos. Obviamente, todo este tempo longe de casa é a confirmação das fantasias da sua esposa, que agora tem como certo que o marido a está a trair. Ela tornou-se amarga e hostil e ele sente-se um tolo. "
Este jogo é talvez o mais perigoso numa relação: as triangulações de ciúme. Entre os casais estudados foi o principal motivo de consulta. O objecto do ciúme pode ser um assunto real ou fantasiado, e não tem necessariamente que ser causado por uma terceira pessoa, pode ser um hobby, um grupo de amigos, a televisão ou qualquer outra actividade do interesse do parceiro que lhe “roube” tempo e espaço. O problema do ciúme é a desconfiança, a desvalorização e as recriminações mútuas, que em conjunto podem vir a construir um ciclo vicioso e insolúvel de mal-estar .
“Numa bela manhã, o mesmo senhor que foi acusado de infidelidade vem trabalhar e uma colega de trabalho do escritório vai dizer: “ Olá, que elegante vens hoje”. Ele vai voltar a sentir-se bem. Alguém reparou nele sem desqualificá-lo! Este fato pode ser o início de uma infidelidade real, originada por uma fantasia. "

Artigo baseado baseado num estudo de Marcelo Ceberio, Terapeuta familiar e Diretor da Escola Sistémica Argentina.)


Por Dra. Dora Rebelo, Psicóloga clínica e Terapeuta de Casal.

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