quarta-feira, 3 de outubro de 2012

“Terapia a dois” – Da ficção à realidade



O filme “Terapia a dois” neste momento em exibição, retrata de uma forma aligeirada o desgaste que se vai instalando numa relação de 30 anos, demonstrando como o aparecimento da rotina, o aumento da insatisfação, associado à falta de comunicação, pode deitar por terra um projecto de vida. E quando tudo isto acontece numa relação com menos anos de existência? Quando a angústia e a incerteza se instalam, o que fazer para não tomar decisões precipitadas?

Uma das dificuldades mais frequentes no relacionamento conjugal passa pela insatisfação que se vai instalando, muitas vezes, de uma forma silenciosa, gerando afastamento entre o casal. 
O decorrer da relação pode trazer alguma desilusão, quando as expectativas que se construíram acerca da mesma acabam por ser defraudadas e quando existe uma certa idealização do outro. Nem sempre o outro corresponde integralmente à imagem que se traçou dele inicialmente, existe uma certa tendência para se anular as diferenças e acentuar as qualidades que encantam ou seduzem a pessoa. 

No entanto, todas estas decepções podem ser ultrapassadas, sem ganharem um carácter destrutivo se o casal estiver disponível para investir na relação, de modo a que a satisfação conjugal seja uma meta partilhada pelos dois elementos, pois considera-se que o amor deve ser continuamente alimentado e rejuvenescido.

Nessa perspectiva, é fundamental expressar as suas necessidades e desejos, bem como o que espera do(a) companheiro(a), no âmbito da relação. Muitas vezes, é aqui que reside o problema. A comunicação assume um papel fundamental na resolução de conflitos, permitindo que discórdias possam ser clarificadas. No entanto, habitualmente, o casal opta por não comunicar, para não se expor ou para não comprometer a relação, gerando, por outro lado, dificuldades de entendimento. Nesta medida, vai-se instalando, progressiva e silenciosamente, um mutismo fruto de um rol de “ocorrências” em que tudo se transforma: os pequenos deslizes passam a ser interpretados como defeitos irreparáveis, o dia-a-dia tão desejado, torna-se numa rotina insuportável e enfadonha. A partilha de uma vida em comum passa a ser evitada. O diálogo sobre pensamentos, sentimentos e expectativas acaba por se restringir ao essencial. 

Neste contexto, é necessário ter em conta ainda que quando a comunicação de um casal se centra na crítica, no ataque constante ao outro e no desprezo, pode gerar o desinvestimento e desencanto da parte do outro, o que irá prejudicar a resolução dos problemas.

No relacionamento conjugal também é importante ter em conta a forma como se gere a individualidade de cada um, para além do projecto a dois. Este deve permitir o crescimento e o desenvolvimento de cada elemento, proporcionando bem-estar. Desta forma, o casal não tem que viver exclusivamente um para o outro, não devendo negligenciar os seus projectos individuais.

 Para tal, é necessário que o(a) parceiro(a) aceite este aspecto, não devendo considerar estar perante uma falha ou demonstração de desinteresse ou de falta de afecto da parte do outro, mas sim respeitar o seu espaço e necessidades pessoais. Torna-se fundamental respeitar as idiossincrasias, tendo em conta que homens e mulheres percepcionam as relações de forma diferente, valorizando divergentes aspectos na relação, o que não tem que representar necessariamente um problema. Para além disso, não se pode descurar o facto de o casal ser descendente de famílias com valores e modelos díspares. Cada um leva uma herança do que é, e de como deve ser vivida a relação a dois, sendo por isso necessário existir uma reorganização para que possam construir o seu próprio modelo, incorporando valores dos dois lados.

Vários elementos tem sido considerados pelos casais, de modo a manter a satisfação conjugal, nomeadamente a confiança, o compromisso, apreciação, respeito, amor, a sensibilidade aos sentimentos do outro, a comunicação aberta e honesta, a capacidade de resolução dos problemas, a partilha no processo de tomada decisão, a qualidade da relação sexual, a partilha da educação dos filhos, o demonstrar interesse pela opinião do outro, entre outros. 

Nem sempre o casal consegue atingir a harmonia e o equilíbrio conjugal sozinho, mantendo a satisfação nestas várias vertentes, sendo necessário recorrer à Terapia de Casal. Esta vai proporcionar um espaço de partilha, favorecendo a expressão de emoções, bem como facilitando uma outra forma de estar e de comunicar, diferente daquela que o casal utiliza habitualmente. Procura-se analisar os factores que estão a desgastar e a degradar a relação, fomentando uma maior consciência acerca do funcionamento do casal, que pode estar a bloquear a manutenção da satisfação e do reajustamento às necessidades que vão surgindo ao longo do tempo. É necessário aceitar que o objectivo não é mudar o(a) companheiro(a), mas sim alterarem alguns aspectos da relação, através da negociação do que cada uma das partes pode facultar, para que se possam sentir mais satisfeitos na relação. 

Assim, a Terapia de Casal pode ser indicada para situações em que ocorre o desinvestimento de um dos elementos, quando existiu uma relação extra-conjugal, quando aparece a insatisfação, no caso de dificuldades ao nível da comunicação, da relação sexual, quando o conflito conjugal se centra na relação tensa com a família de origem, quando ocorrem dificuldades na gestão e tomada de decisão dos aspectos educativos dos filhos ou, simplesmente, quando querem melhorar a qualidade do relacionamento. E no fim de tudo, mais do que um final feliz, o que realmente faz a diferença é ser honesto consigo mesmo e com o outro, tomando consciência do processo evolutivo quer individual, quer conjugal.

Por Sónia Ferrreira, Psicóloga Clínica e Terapeuta de Casal.

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